The Maze - prometi que ia e FUI! Print E-mail

por Adriana que visitou o Maze... 

Olha, é difícil eu prometer algo e não cumprir... pois é, tinha dito que ia pessoalmente ao The Maze, conhecer o local, o Bob e a Malu, e fui!

Agora gostaria de dividir com vocês as minhas impressões, um pouco diferentes daquelas que meu amigo descreveu e publiquei aqui no Blog: Caros amigos, vos escrevo...

Então, fomos em seis pessoas, pegamos dois táxis, e outros amigos deveriam chegar lá e nos encontar mais tarde. Demos o endereço e tudo bem. Fui no táxi de trás, com dois amigos. Meu amigo que já tinha ido e sabia como chegar foi no táxi da frente, explicando.

Realmente, se chega a uma rua de bairro, normal, e a rua vai subindo o morro, vai subindo, subindo e girando, girando, até chegar ao final da rua, onde há bastante espaço para fazer o retorno pois não se pode ir adiante. O táxi da frente começou a dar ré, e o meu taxista se assustou. Começou a dizer "Não é aqui! Não é esse o lugar! Está errado!"

Enquanto isso, meus amigos começaram a descer do táxi, nisso, o amigo que estava ao meu lado disse ao taxista: "Está certo, é aqui sim! Veja, o pessoal está descendo então é aqui mesmo que a gente fica..."

Pagamos e descemos, os táxis fizeram a volta e se foram.

À beira da rua havia uma barraquinha com algumas mesinhas e um pessoalzinho ali bebendo uma cerveja tranquilo. Eu não fiquei com a impressão que ninguém estivesse nos olhando de modo estranho, ao contrário! Tive a impressão de que já estavam muito acostumados com aquele movimento de pessoas indo ao The Maze.

Para chegar ao local, precisa entrar em uma ruazinha bem estreita, onde só passam motos, bicicletas e pessoas. A forma da rua é formada pela construção das próprias casas, idêntico a uma cidadela medieval. Isso sim, concordo! Quem já passeou pelas ruazinhas estreitinhas de um burgo medieval e pela Rua Tavares Bastos, sentiria que as duas pertencem a um mesmo tempo. A Idade Média revisitada, de onde se partia do zero, se construiam as casas uma do lado da outra, colocando mais um andar e mais outra casinha mais pra lá, coladinha na outra, e desenhando assim a planta da cidade - de um bairro, nesse caso.

Um bairro normal, como outro qualquer, onde vivem pessoas normais e reais, de carne e osso como eu e você e não animais de zoológico em exposição! A rua é limpinha, toda cimentada e as casas são bem arrumadas, não mais de tijolo aparente (muitas ainda são), muitas com azulejos, janelas de alumínio, plantas e tapetes e enfeites nas portas. Passa um senhor com duas crianças, uma delas andando em seu triciclo tranquilamente. Chegam alguns motoqueiros e estacionam em frente às suas casas. Uma porta está aberta e uma senhora está sentada no sofá vendo TV e não se incomoda nenhum pouco com nosso grupo que passa na sua porta - alguns curiosos do grupo não se intimidaram a olhar dentro de casa.

Mais um pouquinho adiante e chegamos! É aqui, é aqui! Entramos em uma portinha estreita, de fora nem se imagina como é dentro. Pagamos a entrada, com desconto, porque a Malu lembrou de mim!!!! Grazie, grazie Malu!

O lugar é muito legal... entrando tem umas poltronas, mesinhas... ao lado tem um buraco onde fizeram o bar, num canto tem o espaço pra banda... tava tocando jazz e mpb ao vivo... e mais pro fundo tem a laje! A laje é fantástica, toda de ladrilho... com mesinhas de madeira tipo botequim e uma beira que precisa tomar cuidado pra não cair lá embaixo... é bem alto! Na frente uma vista indescritível, privilegiada... à direita ele colocou uma estrutura de tijolos com uma grelha e oferece até um churrasquinho delicioso!

À esquerda, um grandíssimo prédio cinza cheio de janelas, alto e imponente... o que este prédio está fazendo aqui? Não é coerente com a arquitetura local!!!! É a sede do B.O.P.E... Ah, tá!

Depois da primeira caipirinha, os demais amigos que deveriam chegar depois ligaram... falaram que chegaram até o fim da rua e resolveram voltar... falaram que estavam com medo... vamos voltar, não queremos entrar aí... não, não, esperem aí... fiquem aí, vamos buscar vocês. E assim meu amigo foi buscar os demais, e logo se uniram a nós e ficaram, logicamente, impressionados!

Enfim, conhecemos o Bob, e conversamos um pouquinho com ele... ele nos contou coisas interessantes, um pouquinho da sua história, etc. E nos disse para subirmos, para ir conhecer os alojamentos do Bed & Breakfast... e então, fomos.

Lá em cima é incrível, a construção é totalmente em sintonia com a arquitetura local! E conserva também o estilo do seu idealizador, um artista plástico e cineasta. É tudo decorado com ladrilhos coloridos que dão um charme muito coerente, se assim posso dizer. Coerente com a típica arquitetura brasileira de bairro. E paredes caiadas com portais e portas ovais, meio triangulares dão um ar irreverente e moderno ao lugar. Há duas outras lajes, ladrilhadas, com mesinhas e cadeiras à disposição dos clientes, para admirar a beleza da Cidade Maravilhosa com novos olhos. Aqui é quase tão alto quanto o prédio do B.O.P.E.

Ficamos lá até a última Kombi descer... O The Maze coloca à disposição dos clientes até as 5:00h da manhã uma Kombi que dá uma carona ao pessoal até o ponto de táxi mais próximo. Ainda estava aberto o barzinho, ainda tinha alguns clientes bebendo sua cervejinha ao som de um funk bem baixinho, no respeito dos vizinhos, é claro!

Moral da história:

Toda história tem que ter a sua moral, certo? Quando estava indo lá a minha maior curiosidade era de saber qual era a relação entre o Bob, enfim, o The Maze e os habitantes locais, e cheguei a perguntar isso pra ele. Ele me disse que não tinha nenhuma relação, nada além de vizinhos, e confesso que na hora fiquei meio decepcionada. Esperava que a moral da história fosse o grande bem que o local estava fazendo para a comunidade, os efeitos primários e secundários, etc. Mas depois, fiquei pensando, não era nada disso.

Ele me disse que outras pessoas também tinham começado a oferecer hospedagem como Bed & Breakfast na comunidade mas que não tinham o mesmo, digamos, senso de qualidade como ele, que vinha de Londres. Não lembro exatamente as palavras, esta é a minha versão. Falávamos em inglês.

Depois ele começou a me contar a sua história. Chegou no Brasil em 1981 com um navio inglês que deveria ir até o Equador, mas quebrou e atracou no Rio por 8 dias até que o consertassem para prosseguir viagem. Bob disse que passados os 8 dias, não quis mais subir no navio nem mesmo para pegar suas roupas. As roupas foram para o Equador e ele ficou no Rio, com a sua mulher. Ficou ali mesmo, no Catete, e começou a construir a sua casa. Adotou aquele bairro para morar, trabalhar e construir sua família.

Moral da história: tem sempre uma mulher no meio... Brincadeira!

Acho mesmo é que na verdade a moral é que o Bob foi realmente corajoso de seguir seu sonho, seu amor, sua paixão pela arte e acima de tudo, ele foi totalmente livre de preconceito. O que importa aqui não é se enriquecer com o dinheiro dos turistas que lá chegam atraídos pela curiosidade de visitar uma favela (e se me permitem, olhar as pessoas da favela como se fossem animais em um zoológico, como fazem muitos, o que acho ridículo). O que importa é a capacidade do Bob de ter superado qualquer preconceito ao ponto de decidir ir morar neste lugar que ele escolheu, não importa o que os outros pensariam dele... Agora precisa ver se ele é bem aceito ou não nesta comunidade. Pelo modo em que o ouvi dizer, por alguns é bem aceito, mas por outros ainda não...


 Enfim, a moral aqui é que o único modo de diminuir as diferenças sociais é este: começar a construir BAIRROS que podem e devem ser habitados por QUALQUER pessoa. QUALQUER.


Visitem o The Maze (mas por favor, não fiquem como idiotas tirando foto da casa dos outros!):
 
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